Domingo perde o status de dia de descanso e lazer durante a pandemia

Por Maurício Oliveira

O que descobrimos

  • O domingo costumava ser sagrado para muita gente: nada de pensar em trabalho, nada de tarefas domésticas.
  • A fusão entre vida pessoal e profissional decorrente da pandemia obrigou muita gente a abrir mão dessa premissa.
  • Será que os domingos voltarão a ser exatamente como eram antes?

Uma certa tendência de misturar os chamados dias úteis e com os finais de semana já vinha sendo percebida nos últimos anos. Profissionais autônomos, empreendedores, gente que trabalha em comércio e alguns tipos de prestadores de serviços haviam rompido essa fronteira.

Ainda assim, para a maioria dos brasileiros, o domingo continuava sendo um dia sagrado, dedicado ao descanso e ao lazer. Esse status mudou durante a pandemia. Muita gente está se vendo obrigada a aproveitar o dia para dar conta de todas as atribuições acumuladas, tanto no que diz respeito ao trabalho quanto às tarefas domésticas.

Domingão da faxina

“Perdemos o domingo de vez”, diz a estilista e empresária Amanda Borges, 33 anos. Enquanto ela dava a entrevista por telefone, em pleno domingo, ouvia-se ao fundo o barulho de um aspirador. “É o Marcelo, meu marido, colocando a limpeza em dia”, explicou.

Amanda tem uma loja de marca própria, a Minimal, e Marcelo é videomaker freelancer. Ambos têm um nível de autonomia nas atividades que permite certa flexibilidade nos dias entre segunda e sábado – incluindo eventuais “luxos” quando os planetas se alinham, como ver uma série na terça à tarde ou tomar um vinho no almoço de quinta.

Antes da pandemia, o casal conseguia conciliar tudo para livrar o domingo de outros afazeres que não fossem apenas curtir o dia. “Era um combinado que a gente tinha, evitar ao máximo o uso do domingo para trabalho”, lembra Amanda.

Os dois moram num apartamento de 70 metros quadrados, em estilo integrado, com poucas divisões. Como eles estão passando muito mais tempo em casa e fazendo todas as refeições ali, a necessidade de limpeza e organização aumentou muito. “A gente vai tentando ajeitar as coisas no dia a dia, faz a manutenção básica, mas não tem jeito: o domingo passou a ser o dia reservado para aquela faxina mais profunda”, diz ela.

O ideal vs o possível

Amanda tem esperança de que o casal consiga resgatar, em breve, o domingo como dia de lazer e descanso. “As coisas foram se acomodando com o passar das semanas”, ela diz. “No primeiro mês da quarentena, foi um caos. No segundo, a gente já se organizou melhor. No terceiro, havia quase uma sensação de normalidade.”

Ela considera que um dos grandes aprendizados da experiência é encontrar o equilíbrio entre expectativa e realidade. “Não adianta querer que a casa esteja sempre brilhando, com limpeza impecável. É preciso se satisfazer com um meio termo, para evitar frustrações”, avalia.

Outro exemplo desse aprendizado, para Amanda, está no cuidado com as roupas. “No começo da quarentena eu me preocupava em passar até os lençóis, querendo que tudo ficasse perfeito. Agora eu percebi que tudo bem se apenas dobrar o lençol direitinho quando sai da máquina de lavar”, compara.

A descoberta da cozinha

A empresária Daniela Napolitano, 51 anos, sócia da WithSoul Eventos, está se esforçando ao máximo para manter o domingo como um dia diferente dos demais.

Mas é claro que, durante a quarentena, o perfil das atividades nesse dia certamente mudou. “Antes, a gente saía muito para comer fora, passear no parque, andar de bike, ver a família e os amigos, ir ao cinema, fazer viagens curtas. Mal ficávamos em casa. Agora foi preciso reinventar o domingo”, ela descreve.

Daniela está passando a quarentena com o filho de 22 anos, a filha de 20 e, nos finais de semana, o namorado. A mudança mais radical foi a autodescoberta como cozinheira. “Mudei da água para o vinho nesse sentido. Antes nem chegava perto da cozinha, agora não saio de lá”, ela brinca.

Outra nova atividade foi o desenho. Daniela fez um curso de mandalas e começou a se reunir com os filhos para sessões coletivas de desenho e pintura. “São momentos leves e gostosos de convivência.”

Parar é preciso

Com mais tempo em casa, há uma tendência natural e quase inevitável de pensar no trabalho mesmo aos domingos – quem sabe aproveitar uma parte do dia para adiantar as tarefas da semana?

“Eu me policio muito para não fazer isso. O momento tem sido desafiador, então é no domingo que eu me permito relaxar de verdade. É algo necessário”, descreve Dani. “Se vem uma ideia, um insight, o máximo que faço é anotar. Senão vira uma loucura, a gente não para um minuto.”

A mesma regra vale para os afazeres domésticos. Todos na casa sabem que a ideia é deixar tudo organizado até sexta, no máximo “roubando” um pouco do sábado, mas ficando apenas o essencial para o domingo.

Novos hábitos que ficarão

E quando tudo isso passar, será que os domingos voltarão a ser exatamente como antes? Para Amanda e Dani, algumas mudanças vão se tornar definitivas.

“Muito raramente a gente cozinhava em casa, ainda mais aos domingos. Descobrimos esse prazer e está sendo uma delícia. A gente percebeu também que vivenciava pouco os espaços da nossa casa. Saíamos muito, o tempo todo. Imagino que depois da pandemia seremos um pouco mais caseiros”, projeta Amanda.

“O hábito de cozinhar mais com certeza vai ficar”, concorda Dani. “O prazer de compartilhar atividades manuais, como o desenho e a pintura, é algo que vou me esforçar para manter.”

Fonte: 6minutos,com

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