Princípios de estratégia política (II)

estrategia1Tanto na eleição como no exercício do mandato, nenhum político está livre e desimpedido para colocar em prática a sua estratégia. Existem várias estratégias em disputa.

Tanto na eleição como no exercício do mandato nenhum político, está livre e desimpedido para por em prática a sua estratégia. Terá que fazê-lo em meio a um combate, no qual cada um dos seus adversários vai tentar desconstruir a dele e impor a sua.

Obama e seu staff usaram com sucesso métodos tecnológicos

Assim, Cabe ao eleitor/cidadão julgar os políticos e, de forma implícita, suas respectivas estratégias, para decidir, pela opinião ou pelo voto, entre as alternativas em conflito.

O equacionamento estratégico de uma candidatura ou de uma administração é sempre singular e peculiar a ela. Uma candidatura ou um governo nascem circunstanciados por características próprias da pessoa do líder. De sua história de vida assim como das de seus adversários; dos sentimentos prevalentes dentro do eleitorado; da natureza do cargo; e de muitas outras variáveis ligadas ao partido, ao momento histórico, aos governantes de outros níveis etc.

Por razões como estas é que se diz, com propriedade, que “nenhuma eleição é igual a qualquer outra”. É verdade, mas não é toda a verdade. Não obstante a inevitável variação das eleições (cada uma com a sua singularidade própria), a história revela também que existem certos princípios estratégicos gerais que se aplicam a todas.

Seja sob a forma de dúvidas (O que é melhor para se eleger: propor ou atacar?); seja sob a forma de regras (Nunca interfira quando seu adversário está ocupado em se autodestruir); seja sob a forma de conselhos (Tente sempre pautar a campanha); seja sob a forma de advertências (Não se iluda, inimigo nunca perdoa….Nem esquece); estes princípios, testados e confirmados ao longo da história, assim como na prática eleitoral, são o produto depurado de uma sabedoria política. Chegam a ser considerados quase como dogmas políticos.

Eles se referem a questões que, na sua maioria, se manifestam em toda e qualquer campanha, seja para vereador ou para Presidente da República; em campanhas ricas, como nas pobres; em países desenvolvidos como em países subdesenvolvidos; hoje como há séculos atrás.

Não é pois um conhecimento que se deva desconhecer, e muito menos desprezar. Também não é um conhecimento teórico. Muito pelo contrário, é totalmente voltado para a prática, para a eficácia, a ponto de às vezes revelar-se demasiado rude, cínico e até amoral.

Na realidade, não são princípios morais. São princípios de eficácia política. Referem-se à conquista e à manutenção do poder, sem preocupar-se em subordinar o poder, assim conquistado, a valores morais, filosóficos ou religiosos.

São o produto do que costuma-se chamar a escola realista da política por contraste com o pensamento político doutrinário, ideológico, filosófico ou religioso.

Seu foco é o comportamento real das pessoas e não o ideal, seu objetivo é rigoroso e exclusivo – a conquista, o exercício e a manutenção do poder – e a sua sanção se manifesta no resultado. Esta escola “realista” da política se encontra nos escritos de pensadores, estadistas, militares, cortesãos, sacerdotes, cardeais, artistas, estrategistas. Personalidades históricas como Cezar, Sun Tzu, Gracian, Maquiavel, Napoleão, Bismark, Talleyrand, Richelieu,Clausewitz, Lao Tse, Ibn Khaldun,Guicciardini, Castiglione, Churchill, Mazzarin, são alguns dos principais formuladores deste pensamento.

Obama e o estrategista David Axelrod

Suas biografias ilustram a longevidade e permanência desta corrente de pensamento, a importância histórica dos pensadores e líderes que os escreveram, assim como a desconcertante variedade de épocas, países, culturas em que viveram.

São escritos que cobrem um período de, pelo menos, três milênios, e que provêm tanto do Ocidente como do Oriente.

Não obstante as enormes diferenças de épocas históricas e das sociedades em que viveram guardam uma notável coerência entre si, a constituir um verdadeiro corpo de conhecimentos, em torno de um mesmo objeto de estudo, apoiado principalmente na observação e na prática.

A excepcional longevidade, coerência e universalidade deste “corpo de conhecimentos”, permitiu a sua validação ao longo da história política. Não é por outra razão que seus formuladores recorrem, com tanta freqüência, a exemplos históricos, para buscar a confirmação dos princípios, regras e postulados que apresentam.

A busca da confirmação na história

Os exemplos históricos que usam, para confirmar a validade dos princípios que postulam, são ilustres, fartamente conhecidos e memoráveis:

O Velho Testamento;
Episódios da história dos grandes impérios como o Egípcio, o Chinês, o Persa, o Romano, o Islâmico;
A história do Papado, em especial da renascença italiana;
A Itália dos ducados e principados renascentistas, dos Sforza, Médici e Borgia;
A arte da guerra;
A vida de reis e a educação de príncipes;
Os conflitos religiosos;
As revoluções, as sedições e golpes políticos;
Até às obras literárias irreverentes, às reflexões “realistas” sobre os homens, a política e o governo.

Estes princípios, às vezes referidos como as Leis do Poder, partem de uma premissa muito simples:

“Certas ações, praticadas em observância àquelas leis, resultam em maior poder para quem as pratica; enquanto outras, praticadas em conflito com aquelas leis, resultam em perda de poder e até mesmo em ruína política”.

Finalmente, resta acrescentar que consistem num conhecimento prático, aplicável a qualquer situação onde a problemática da política – conquistar e manter o poder – se faça presente. Consistem de conselhos, advertências e orientações para aqueles que se dispõem a participar da política no mundo real, assumindo seus riscos e custos, diferentemente daquela outra política, da oratória balofa, da submissão à retórica das intenções, e ao “politicamente correto”.

James Carville, estrategista dos democratas Clinton/Obama(EUA)

É para os primeiros que este corpo de conhecimentos foi criado. Por isto é um conhecimento prático, amparado em uma fartura de exemplos e medido por resultados visíveis.

Tais conselhos e advertências não devem ser entendidos como “meros conselhos e meras advertências”. São muito mais. Para os que os postulam são regras de sobrevivência. São avisos do que funciona e do que não funciona. Há um preço a pagar por desrespeitá-las, e o poder é a moeda com que se paga. Modernamente, a este corpo de conhecimentos clássico, agregou-se aquele produzido pelas obras sobre política e eleição, escritas por quem participa destes processos. É, sobretudo nas obras de consultores estratégicos e de publicitários políticos, que os princípios dos clássicos da “escola realista” são utilizados, na prática da moderna democracia.

Nestes trabalhos a tradição da “escola realista” é preservada e expandida. Ao descreverem processos políticos reais, tanto no governo como em eleições, seus autores comprovam a fecundidade daquela tradição, com os exemplos dos dias atuais. Além disso, utilizam, com uma formulação mais moderna, os princípios e “leis” que os clássicos propuseram, como regras de estratégia e prudência política.

Foi com base neste ilustre tradição, que vem desde os gregos aos consultores americanos dos nossos dias, desde a China Imperial ao Brasil republicano e democrático de hoje, que os princípios estratégicos que serão analisados nesta coluna do nosso site foram escolhidos.

Fonte: Política para Políticos

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