Câmara do DF pede apuração policial sobre vazamento de áudio de reunião

celinaDocumento é assinado por 24 distritais; GDF também pediu investigação. Presidente da Casa e ex-secretário trocaram acusações sobre áudios.

Os 24 deputados da Câmara Legislativa do Distrito Federal assinaram nesta quarta-feira (24) um pedido de investigação sobre a gravação e o vazamento do áudio de uma reunião dos parlamentares com Rodrigo Rollemberg, realizada em 14 de maio no gabinete do governador. Segundo a presidente da Casa, Celina Leão (PDT), o documento será enviado ao Ministério Público e às polícias Civil e Federal.

Distritais da base aliada e “independentes” se reuniram durante a tarde com os secretários da Casa Civil, Sérgio Sampaio, e de Relações Institucionais, Marcos Dantas. Na saída do encontro os gestores disseram que o governo passa por “turbulência”, mas minimizaram o dano causado pelo vazamento na relação entre Executivo e Legislativo.

“Estamos atravessando uma turbulência. Isso na política se resolve como? Com muita conversa, muito diálogo, muita negociação. O que os deputados querem é contribuir, levando mais infraestrutura. Eles querem atender suas bases, não estamos inaugurando nada aqui”, afirmou Dantas. Segundo ele, o governador está “muito preocupado, muito constrangido”.

Sampaio disse que haverá “demissão sumária” caso algum integrante do GDF tenha envolvimento comprovado com o grampo. “O governador determinou isso textualmente. Não entendo como uma crise entre Buriti e Câmara porque as duas instituições se sentem agredidas”, disse o chefe da Casa Civil.

É engraçado, a fala do secretário Hélio Doyle não consta no áudio. E ele foi retrucado por mim na fala, quando ele queria enfiar o IPTU aqui contra a população do DF, a qualquer custo, em cima dos parlamentares. Isso sequer foi falado”
Celina Leão (PDT),
presidente da Câmara Legislativa do DF

Dantas disse que até esta quarta nenhuma varredura ou mudança no protocolo de reuniões tinha sido determinada pela Casa Civil. “Isso ainda não foi discutido internamente. Nós estamos impactados pelo que aconteceu, mas é claro que ninguém deseja que isso volte a se repetir.”

Troca de acusações
Em entrevista após a reunião, Celina Leão disse que o vazamento foi “pinçado” e que funcionários do GDF ligados ao PT podem estar por trás da ação. A parlamentar também levantou suspeita sobre o ex-chefe da Casa Civil, Hélio Doyle. Segundo Celina, a participação dele na reunião gravada foi omitida do vazamento.

“É engraçado, a fala do secretário Hélio Doyle não consta no áudio. E ele foi retrucado por mim na fala, quando ele queria enfiar o IPTU aqui contra a população do DF, a qualquer custo, em cima dos parlamentares. Isso sequer foi falado”, declarou.

O governador Rodrigo Rollemberg )centro) ao aldo do secretário da Casa Civil, Hélio Doyle, e da presidente da Câmara, Celina Leão (PDT), durante anúncio de pagamento intregral do salário do funcionalismo em março (Foto: Raquel Morais/G1)O governador Rodrigo Rollemberg )centro) ao aldo do secretário da Casa Civil, Hélio Doyle, e da presidente da Câmara, Celina Leão (PDT), durante anúncio de pagamento intregral do salário do funcionalismo em março (Foto: Raquel Morais/G1)

Ao G1, Doyle negou envolvimento no caso. “Se eu fosse gravar e divulgar, eu tiraria justamente a minha parte? Acho que ela devia raciocinar um pouquinho mais antes de falar. Esse episódio está servindo de pretexto para acirrar as relações entre Câmara e GDF. A quem interessa isso? Certamente, não ao governo.”

Se eu fosse gravar e divulgar, eu tiraria justamente a minha parte? Acho que ela devia raciocinar um pouquinho mais antes de falar. Esse episódio está servindo de pretexto para acirrar as relações entre Câmara e GDF. A quem interessa isso? Certamente, não ao governo”
Hélio Doyle,
ex-chefe da Casa Civil do DF

Hélio Doyle anunciou sua demissão em 10 de junho dizendo ter se tornado “o alvo das críticas” de opositores. No mesmo discurso, ele denunciou práticas de “toma lá, dá cá” e disse que distritais faziam chantagens no Buriti e pediam cargos em troca do apoio em votações.

“Eu acho que um secretário que sai falando, atacando esse poder [Legislativo], e daí vaza sem a fala do secretário, que estava lá? É, no mínimo, suspeito”, diz Celina.

Doyle afirmou que não considera o conteúdo dos áudios “muito grave” e que os diálogos denunciados por ele no início do mês eram “mais fortes, em reuniões mais reservadas”.

“Tem coisas muito mais graves que isso mas que, certamente, não seriam ditas numa reunião com 30 pessoas. Me reuni inúmeras vezes com deputados, inclusive com Celina, e não tenho gravação nenhuma. Se tivesse, poderia dizer que tenho provas das denúncias que fiz. Não tenho”, afirmou Doyle.

Reclamações
Ao longo da tarde, outros deputados cobraram investigação e posicionamento firme do Buriti. “Eu não quero nada [do GDF], tanto que estou há sete meses sem cargos e não preciso de cargo pra sobreviver. O teor da conversa é o que menos interessa, o que interessa é a sem-vergonhice de quem gravou”, afirmou Dr. Michel (PP).

Membro da base, Rodrigo Delmasso (PTN) disse que Rollemberg não pode ficar em silêncio frente às gravações. “O governador, mesmo que não tenha responsabilidade, deveria vir a público dizer que não compactua. Quem cala, consente”.

Nesta quarta, Rollemberg disse que “lamenta, mas encara com tranquilidade” e que “não está preocupado” com o vazamento. Em nota divulgada horas antes, o GDF afirmou que a Polícia Civil será acionada para investigar o caso.

Eu não quero nada [do GDF], tanto que estou há sete meses sem cargos e não preciso de cargo pra sobreviver. O teor da conversa é o que menos interessa, o que interessa é a sem-vergonhice de quem gravou”
Distrital Dr. Michel (PP)

Celina disse que as “relações institucionais” não serão alteradas e cobrou postura mais firme de Rollemberg. “Nós entendemos nosso papel. Quem não entende o papel do governador é o governador, que deveria ter se posicionado desde ontem, dado uma mensagem clara. Até porque nós estamos falando de um crime. Se acontecesse um crime desse tipo, a primeira pessoa a pedir investigação seria eu.”

Líder da oposição na Câmara, Chico Vigilante (PT) disse condenar as gravações e afirmou que o partido não tem relação com o vazamento. “A minha prática política é de nunca falar em sala fechada o que não pode ser dito em público. Agora, quem falou é responsável pelo que diz”, afirmou. “Houve um certo strip-tease político, as coisas ficaram desnudas.”

Gravações
No trecho da gravação atribuído a Celina Leão, a parlamentar fala sobre a ausência de parlamentares no primeiro escalão do Executivo. O nome e a voz do interlocutor não aparecem no áudio, mas Celina se refere a ele pelo termo “senhor”.

“A classe política, querendo ou não, precisa estar presente no governo do senhor. O senhor não tem um secretário deputado. Um secretário deputado. ‘Tô’ falando que pode ser deputado federal, pode ser deputado local. Querendo ou não, a classe política ‘tá’ fora do governo”, afirma Celina no áudio.

“Eu falei uma coisa para o senhor e volto a repetir: o senhor é bom demais. Coração bom demais. ‘Não, vai lá, eu vou deixar você fazer o trabalho político do jeito que você quiser, eu te dou liberdade.’ […] Se a gente não tiver uma pauta com o senhor, a Câmara vai arrumar a pauta dela”, continua a gravação.

No mesmo trecho, Celina fala que as negociações se dariam “dentro de uma filosofia de correção, sem fatiar”. “Sem rebaixar a classe política dessa forma, colocando uma participação de ideias, eu acho que o senhor vai conseguir um ambiente harmônico com todos nós”.

‘Dividir o bolo’
O segundo áudio, supostamente da mesma reunião, é atribuído ao deputado Juarezão (PRTB), estreante na Câmara Legislativa. A voz gravada fala que “o bolo tinha que ser dividido por igual” entre os distritais.

Questionado pela TV Globo, o parlamentar não confirmou a autoria das declarações. “Não me lembro. Tenho que ver o áudio para saber se fui eu”, disse. A voz captada na gravação fala sobre melhorias em Brazlândia, reduto eleitoral do político.

“O comandante da PM em Brazlândia riu da minha cara antes de ontem, no telefone: ‘Duvido se vai acontecer’. Quando eu falei com Marcão [Dantas], ele me ligou e falou: ‘Juarezão, vai vir 20 PM pra Brazlândia'”, diz o áudio.

“Eu quero sim, queria que o senhor dividisse o bolo com os deputados por igual. Porque dizem que tem deputado que deixa secretaria e tem mais não sei o quê. Então, eu só queria isso e acho que todos vão concordar, porque o bolo tem que ser dividido por igual”.

O pedido continua. “Se o senhor deu um pra mim, tá, dê um pra ele, um pra ele, um pra ele. O Marcão controla esse trem bem controlado. Por isso que eu acho que a base tá meia complicada [sic]. […] Na minha cidade, tudo que eu preciso eu ligo, falo com o Marcão, falo com o senhor, mas na questão da Câmara, divide o bolo por igual.”

“Se uns pegou muito [sic], nós vamos chamar aqui, agora, todo mundo e vamos sentar. Quem deu a ideia foi o Juarezão. Eu acho que é desse jeito que funciona. E outra coisa: quem pegou muito, meus companheiros, vai ter que voltar e entregar alguns cargos para alguém”, afirma a voz captada na gravação.

Fonte: G1

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