Cidadania pelas páginas: Dia Nacional do Livro reaviva o debate sobre acessibilidade e analfabetismo funcional

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Por Rebeca Luisy

Nesta quinta-feira (29/10), o Brasil celebra o Dia Nacional do Livro, data instituída em memória à fundação da Biblioteca Nacional. Contudo, para além do caráter comemorativo e cultural, o marco serve como um divisor de águas para a reflexão sobre o papel da leitura no combate às desigualdades estruturais e na promoção do desenvolvimento socioeconômico. Em um cenário nacional em que o acesso à informação define oportunidades, o livro se consolida como um pilar indispensável para a garantia de direitos fundamentais e para o pleno exercício da cidadania em todas as esferas da sociedade.

Embora o país tenha registrado avanços pontuais — como a redução da taxa de analfabetismo absoluto para 4,9%, segundo dados da PNAD Contínua —, os desafios para a consolidação de um país leitor permanecem profundos e alarmantes. O Brasil ainda contabiliza cerca de 8,4 milhões de brasileiros que não sabem ler nem escrever, escancarando severas assimetrias regionais e raciais, sobretudo entre os idosos. Além disso, a recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta que mais da metade da população é composta por não leitores, enquanto o analfabetismo funcional atinge 29% dos cidadãos, comprometendo a capacidade de interpretação textual e o pensamento crítico no cotidiano.

A lacuna na formação leitora e no acesso à literatura manifesta-se de forma ainda mais crítica no segmento das Pessoas com Deficiência (PCDs). A escassez crônica de acervos e obras adaptadas — seja em Braille, audiolivros, fontes ampliadas ou sob os parâmetros de Linguagem Simples — impõe barreiras severas à autonomia dessa parcela da população. Sem a oferta regular de material acessível, restringem-se drasticamente as chances de ingresso no ensino superior e a qualificação para o mercado de trabalho, perpetuando ciclos de exclusão social e dependência econômica.

Diante desse panorama, especialistas apontam que a democratização da leitura deve ser tratada como prioridade de estado e política pública de inclusão. O Defensor Público Federal André Naves, especialista em Direitos Humanos e Economia Política, enfatiza que a leitura não se resume a um privilégio acadêmico ou entretenimento, mas configura ferramenta de emancipação humana. Segundo o defensor, privar parcelas expressivas da sociedade do letramento adequado e de formatos acessíveis compromete o potencial criativo e a produtividade do país, travando o avanço em direção a uma estrutura social justa.

Assim, o fortalecimento das redes de bibliotecas comunitárias, o incentivo às publicações inclusivas e o investimento em tecnologias assistivas despontam como caminhos urgentes para a transformação dessa realidade. Na era da informação e da transição digital, garantir a difusão do conhecimento traduz-se em garantir a própria dignidade humana. O Dia Nacional do Livro reafirma, portanto, que assegurar o livro e a leitura a todos os brasileiros é o passo fundamental para a construção de uma nação verdadeiramente democrática, autônoma e desenvolvida.

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