
Por Rebeca Luisy
Em entrevista após o evento realizado ontem na CLDF para homenagear mulheres, a ativista Jéssica Citrus, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, apontou a revitimização como a maior dificuldade enfrentada por mulheres ao buscar ajuda nas instituições responsáveis pela proteção e apuração desses crimes. Segundo ela, a necessidade de repetir incessantemente o relato do ocorrido — devido à falta de integração entre os sistemas da polícia, do Judiciário e do Instituto Médico Legal (IML) — faz com que a vítima “reviva o momento o tempo todo”, agravando o sofrimento psicológico já imposto pela violência.
Citrus relatou que, embora o sistema tenha evoluído nos últimos anos, sua própria experiência, ocorrida há cerca de um ano e meio, expôs falhas no acolhimento inicial. Ao chegar ao IML ainda com o rosto machucado e um ponto na boca, recém-saída do hospital, deparou-se com uma médica que, mesmo diante das evidências físicas da agressão, limitou-se a perguntar “o que houve”, sem demonstrar sensibilidade ou preparo para lidar com a situação. Esse tipo de atendimento, segundo a ativista, ilustra como a estrutura ainda pode falhar em proteger a dignidade e a integridade emocional da mulher no momento mais vulnerável.
A ativista enfatiza que, apesar dos avanços recentes, o sistema de proteção à mulher ainda precisa de melhorias significativas, especialmente no que diz respeito às medidas protetivas. Para Citrus, é fundamental que essas medidas sejam fortalecidas não apenas no aspecto jurídico, mas também no suporte psicossocial, incentivando e garantindo que as vítimas tenham acesso a tratamento psicológico e acompanhamento especializado. Esse suporte, avalia, é essencial para romper o ciclo de violência e evitar que a mulher retorne ao lar do agressor por razões emocionais ou dependência financeira.
O depoimento de Jéssica Citrus escancara uma realidade ainda presente em muitos casos de violência doméstica e feminicídio: a jornada da vítima não termina com a agressão, mas se prolonga em um calvário burocrático e emocional dentro das próprias instituições que deveriam protegê-la. A falta de integração entre os órgãos e a ausência de um atendimento humanizado contribuem para que muitas mulheres desistam de prosseguir com as denúncias ou retomem relacionamentos abusivos, perpetuando o risco de novas violências.
A partir de sua experiência, Citrus defende que a luta contra o feminicídio deve incluir, de forma urgente, a reforma dos protocolos de atendimento e a ampliação das redes de apoio psicossocial às vítimas. Somente com um sistema que evite a revitimização e ofereça suporte integral — jurídico, emocional e financeiro — será possível romper com a cultura de impunidade e proteger efetivamente as mulheres em situação de risco.


































